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viernes, 25 de marzo de 2011

Aidenor Aires- Bahía -Brasil

















Aidenor Aires- Bahía -Brasil


ELEGIA VIII



O menino brincava entre frutos verdes


O menino brincava entre frutos verdes
e promessas álacres de pássaros.
O pai, em seu navio de alvíssaras,
reunia tropa.
Recolheu o ruído ruminante dos arbustos,
abençoou os filhos e virou as costas
em rumo de distância, estrada e esquecimento.

O menino leu o inventário de coisas proibidas.
Meteu-se pelas moitas. Na mão trêmula,
os ovos lilases da codorniz.
O menino empolgou seu bodoque
e disparou pelotas no copado da árvore
onde chilreava uma tentativa de primavera.

O menino vadeou os rios, riachos.
A sombra do pai se esgarçou no vento,
se esgarçou nos olhos
e ficou morando, em voz esfiapada,
no pensamento.

O menino, então, foi ficando homem antes do tempo.
Segurou o choro, que homem não chora.
Segurou o medo, que a vida pede valentia.
O menino encurtou o tempo,
apressou horas,
abreviou os dias.
O menino se acercou da morte
na vida que vivia.
Recompôs seu pedaço de infância
num poema,
e entendeu
que a dor se disfarça,
mas não alivia.

O menino nunca mais foi menino.
Simulava infância quando a hora exigia.
Abraçava passarinhos, consultava flores,
mirava horizontes
em naves de turva alquimia.
O menino nunca se perdeu. E foi sozinho
que atravessou o dia feral,
o alheio mundo.

E foi sozinho que decifrou o amor.
Não teve amor de infinito ideal e diva chama.
Teve um amor de menino
e, até hoje, é este amor de riso infantil
e inseguro gesto
que oferece ao peito de quem ama.

Ficou homem e sozinho, por isso ainda é um menino
de olhos de horizonte.
Ainda é um menino que constrói caminhos.
Não aprendeu a crescer e demorou no berço.
Não aprendeu como fazer a barba,
como iscar o anzol, como entender a viagem dos peixes.
Não aprendeu a decifrar o mistério das mulheres
e ficou sempre aprendendo vozes
e inventando palavras
para falar com elas.

O menino foi ficando homem antes do tempo.
O homem esqueceu-se, um dia,
na alma do menino em que existia.
Ao mundo, foi mandado caminhar, sem pés.
Ao mundo foi mandado nadar, sem braços.
Ao mundo foi ordenado voar, sem asa




ELEGIA XII


Ergo um lamento aos deuses mortos

Ergo um lamento aos deuses mortos.
Não desfrutaram a inteira infância dos homens.
Estou levantando um canto de pesar
aos deuses precocemente sepultados.

Estavam ainda na alvorecente atmosfera
de criações e inventos.
Eram deuses de almas de barro e estrelas.
Habitavam a casa dos homens, amavam suas mulheres,
divertiam-se imaginando e desfazendo mundos.
Eram deuses trágicos de lirismo e paixão.
Iam desenhando mares, semeando montanhas,
despertando sementes e árvores
em uma enorme oficina de ferramentas gestantes.

Estou chorando a ausência dos deuses coloridos,
de plumas, que se faziam em água, terra, águia,
serpente alada, arco-íris de retumbante trovão e chuva.
Os deuses que ainda não haviam inventado as horas
e permaneciam atarefados urdindo ventos, refazendo bichos,
em exercício de gerar o ser perfeito.

Colhiam de seus inventos as primícias
de terra, água, fogo, madeira e lodo,
naquele cio onde o nada sonhava caber tudo.

Lamento a desaparição daqueles deuses jovens,
que ansiavam inventar-se delirando mundos.
Foram, de repente, arrojados ao escuro
Orco onde as almas apodreciam.
Depois de consumir as carnes, despovoar a terra,
extinguindo a casa do mistério,
aqueles deuses adolescentes e soberbos
padecem o inquieto exílio sem esquecimento.

Outros deuses, enfastiados de geração e tristes,
tentaram inventar um mundo
com as cinzas de suas crenças.
Calaram a orquestra do caos sonante.
Fecharam a oficina feérica.
Impuseram sua preferência de sombra, sua apologia de dor,
seu gozo de remorso,
sua unção de culpa.

Lamento a extinção daqueles deuses
capazes de paixão, amor e desatinos.
Aqueles deuses moradores de seu tempo redondo,
de suas eras sem esquinas.
Lamento a perda do livre dom da poesia,
dos templos estelares mirando o firmamento.
Lamento a oclusão das almas
nos nervos ajoelhados.
E estou erguendo um lamento aos deuses infantis
assassinados
uma elegia doendo na memória
de um tempo sem futuro e sem passado.

Aidenor Aires nasceu em Riachão da Neves, Bahia – Brasil, em 30/05/1946. Bacharel em Letras e Direito pela Universidade Católica de Goiás. Presidente da União Brasileira de Escritores de Goiás. Membro da Academia Goiana de Letras e Academia Goianiense de Letras. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Obra: Reflexões do Conflito, 1970; Itinerário da Aflição, 1973; Na Estação das Aves, 1973; Lavra de Insolúvel, 1994; Rio Interior, poemas; Amaragrei, 1978; O Canto do Regresso, 1979; Tuera – Elegia Carajá, 1980; Aprendiz do Desencanto, 1982; Os Deuses São Pássaros do Vento. 1984; A Árvore do Energúmeno, contos, 2001; Via Viator, 1986; O Dia Frágil, 2005; Seleta Poética, antologia, 2005; XV Elegias, 2007; Seiva Resguardada, tradução, 2007; Mínimo Olhar, crônicas, 2009.

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